Toda peça da minha curadoria passa por duas seleções antes de chegar a você: nasce das mãos de uma artesã que faz o banho de ouro peça por peça, e depois precisa me convencer pessoalmente de que merece entrar na coleção. Hoje eu abro os bastidores desse processo, porque acredito que você tem o direito de saber exatamente o que está comprando.
Eu sou a Fernanda Berardinelli, de Vila Velha, no Espírito Santo. E se tem uma pergunta que me alegra receber é essa: de onde vêm as suas peças? A resposta tem nome, tem rosto e tem vinte anos de história.
Uma artesã capixaba, desde 2004
As peças da minha curadoria são criadas pela Leide Viero, designer que está no mercado desde 2004. Nascida em Cidade Gaúcha, no Paraná, e formada em Moda aqui em Vila Velha, a Leide construiu em duas décadas algo raro no mercado de acessórios: um ateliê onde cada peça é desenhada, montada e banhada à mão, uma por uma.
Eu conheci o trabalho dela pessoalmente, no showroom, aqui no Espírito Santo. Lembro do encanto imediato: vi de perto o cuidado com cada peça, os banhos de ouro feitos manualmente, a originalidade de desenhos que eu não encontrava em nenhum outro lugar. Saí de lá com a certeza de que era com ela que eu queria construir essa história.
O que significa, na prática, “feito à mão”
No ateliê, o processo é o oposto da linha de produção. O desenho nasce da criatividade da Leide, sem cópia de catálogo. A montagem é manual: cada pérola posicionada, cada elo fechado, cada aplicação de cristal cravada com atenção individual. E o acabamento é a parte que mais me impressiona: o banho de um milésimo de ouro é aplicado peça por peça, por galvanoplastia, seguido da cobertura de verniz que protege o banho, um cuidado que explico em detalhe no texto sobre por que o banho de ouro escurece ou não.
Produção artesanal significa também produção limitada. Quando um modelo acaba, a reposição leva semanas, porque não existe estoque infinito saindo de uma esteira. Eu sei que isso às vezes frustra quem queria uma peça que já saiu. Mas é exatamente essa limitação que garante que a sua peça não vai estar no pescoço de outras dez mulheres na mesma festa.
O que a ciência diz sobre o feito à mão
Minha admiração pelo artesanal tem companhia na pesquisa acadêmica. Em 2015, os pesquisadores Christoph Fuchs, Martin Schreier e Stijn van Osselaer publicaram no Journal of Marketing uma série de estudos sobre o que chamaram de efeito handmade: consumidores atribuem mais valor a produtos feitos à mão, e a razão central identificada foi emocional. Nos experimentos, as pessoas percebiam os produtos artesanais como literalmente “feitos com amor”, e pagavam mais por isso, especialmente quando a compra era um presente.
Antes disso, em 2004, o psicólogo Justin Kruger e colegas descreveram no Journal of Experimental Social Psychology a heurística do esforço: tendemos a julgar como mais valiosas as obras que percebemos ter exigido mais tempo e trabalho. Nos estudos, o mesmo poema, o mesmo quadro e a mesma armadura eram avaliados como melhores quando os participantes acreditavam que tinham levado mais horas para ser feitos.
Ou seja: quando você sente que uma peça única, montada à mão, carrega algo que a peça de esteira não tem, não é impressão. É um valor real, percebido de forma consistente, documentado em pesquisa. O trabalho humano imprime significado na matéria.
Como eu escolho o que entra na curadoria
A segunda seleção acontece comigo, e ela é rigorosa por um motivo simples: cada peça que entra leva o meu nome junto. Os meus critérios, na ordem em que eu aplico:
Acabamento primeiro. Eu viro a peça ao contrário. Verso, fecho, tarraxa, pontos de solda: onde ninguém olha é onde a qualidade mora. Se o avesso não me convence, a frente não importa.
Caimento no corpo. Peça bonita na bancada e desajeitada no corpo não entra. Eu provo, movimento, sinto o peso. Brinco que pesa no lóbulo e colar que não assenta no colo ficam no showroom.
Desenho com identidade. Procuro peças que tenham assinatura, aquelas que fazem alguém perguntar onde você comprou. Se parece com o que está em toda vitrine, não é curadoria, é repetição.
Versatilidade. Penso em você de manhã, com pressa: essa peça acompanha trabalho, culto e jantar? As que respondem sim a pelo menos duas ocasiões ganham prioridade, porque peça boa é peça usada.
E a pergunta final: eu usaria? Se a resposta hesita, a peça fica. A curadoria inteira passa por esse filtro, e é por isso que quando uma cliente me pede ajuda para escolher, eu conheço cada peça pelo nome, como quem apresenta amigas.
Por que peça tem nome de mulher
Se você já reparou, as peças da curadoria carregam nomes próprios: Lívia, Bárbara, Catarina, Flavia, Isa. Não é capricho. É um jeito de lembrar, a cada cadastro e a cada venda, que peça artesanal tem biografia: alguém desenhou, alguém montou, alguém escolheu. E a próxima pessoa dessa corrente é você, que vai dar à peça a parte mais importante da história dela.
É também por isso que eu insisto tanto no cuidado depois da compra: uma peça com esse caminho merece durar. O saquinho individual, a ordem de entrada e saída, o pano macio, tudo o que ensino em como cuidar das suas peças existe para proteger esse trabalho todo.
O que a produção limitada muda para você
Vou ser transparente sobre como funciona a disponibilidade, porque recebo essa pergunta toda semana. A seleção do momento é o que está disponível agora. Quando uma peça sai, posso pedir reposição à Leide, mas ela entra na fila da produção artesanal e leva semanas para voltar, quando volta, porque algumas aplicações de pérola e cristal dependem de matéria-prima que nem sempre se repete.
Na prática: se uma peça conversou com você, essa conversa tem prazo. Eu não digo isso para apressar ninguém, digo porque é a verdade da produção limitada. O outro lado dessa moeda é o que me fez escolher esse modelo: você nunca vai ser mais uma usando a peça da vez.
Se quiser entender como uma peça dessas se torna parte da sua identidade, escrevi sobre a peça de assinatura e o que a ciência diz sobre acessórios. E se quiser ver de perto o resultado dessa dupla seleção, os conjuntos são o melhor retrato do trabalho da Leide com a minha curadoria.
Agora me conta: você prefere saber a história do que usa, ou nunca tinha pensado nisso? Deixa nos comentários, essa conversa me interessa de verdade.
Quer conhecer a seleção que passou por esse filtro?
Te apresento as peças pelo nome, com a história de cada uma.
Fernanda Berardinelli
Curadora de acessórios finos artesanais em Vila Velha, no Espírito Santo. Escolho cada peça pessoalmente no ateliê e adoro ajudar cada cliente a encontrar a sua: @fernanda.berardinelli · minha história